Estima-se que 6 % da população mundial possua algum tipo de transtorno específico de aprendizagem.

Para algumas pessoas, os anos escolares estão naturalmente encadeados em um desenvolvimento contínuo e crescente de suas habilidades acadêmicas e seu desempenho reflete esse percurso. Para esses alunos, aprender da maneira como as escolas ensinam, é natural. Mas não é assim para todos. A educação de alunos com transtornos específicos de aprendizagem, em especial a dislexia e a discalculia, tem trazido desafios aos métodos pedagógicos e propostas curriculares vigentes em nosso país. A situação ainda é muito adversa, expondo alunos e familiares a níveis críticos de risco emocional e financeiro. Em decorrência da natureza neurobiológica de suas dificuldades, as crianças e jovens com transtorno específico de aprendizagem têm que trabalhar com fragmentos de informação, na difícil tarefa de tentar atribuir um padrão à informação que recebem. Esse universo “fragmentado” contribui para reforçar o senso de frustração construído ao longo de uma vida escolar sofrida, marcada pelo fracasso. Com os recursos cognitivos ocupados em lidar com sua dor psíquica, o jovem não pode avançar em seu processo de aprendizagem e, então, se vê aprisionado no sistema escolar: como não tem as ferramentas, não consegue aprender como seus pares e, como não aprende, não pode ser legitimado como sujeito que tem interesse em aprender.

Estatísticas americanas indicam que 40% dos jovens com transtorno específico de aprendizagem não concluem o ensino médio naquele país.

Acredito que o dilema atual da diversidade de alunos versus a eficiência do ensino pode ser abordado pelo ângulo da customização da aprendizagem. À medida em que o aluno com transtorno específico de aprendizagem puder individualizar seu percurso de aprendizagem e desenvolver habilidades metacognitivas para adquirir autonomia na gestão de sua aprendizagem, ele terá condições de construir uma autoimagem de aprendiz produtivo e minimizar o sentimento de não pertencimento ao ambiente escolar. Em outras palavras, poderá ser mais atuante no planejamento de suas futuras ações na vida adulta e nas suas tomadas de decisão sem sentir-se vencido pelos seus “limites”.

Estima-se que 6 % da população mundial possua algum tipo de transtorno específico de aprendizagem. Esses transtornos persistentes manifestam-se muito cedo na vida e não decorrem da falta de oportunidade de aprender, de deficiência intelectual ou sensorial ou de doenças adquiridas. Quase sempre, resultam em muito sofrimento para o indivíduo e sua família. Se não houver uma intervenção personalizada e de longo prazo, a defasagem de desempenho na escola aumenta com o passar dos anos, resultando em prejuízos pessoais irreparáveis tais como: abandono escolar, transtornos psico-afetivos, inadaptação social e subemprego, para citar alguns. Estatísticas americanas indicam que 40% dos jovens com transtorno específico de aprendizagem não concluem o ensino médio naquele país.

Classificação dos subtipos de transtorno específico de aprendizagem.

Os transtornos específicos de aprendizagem são classificados em subtipos, dependendo da área da aprendizagem mais afetada: transtorno de leitura, transtorno de expressão escrita, transtorno de habilidades matemáticas, transtorno não verbal e transtorno de linguagem, entre outros. É mais fácil estudá-los e explicá-los dessa forma, mas, na realidade, um indivíduo com transtorno específico de aprendizagem nunca será igual a outro, haverá sempre uma interação entre suas parcelas de “dificuldades” e de “aptidões” inatas e do meio familiar, educacional e sócio-cultural em que ele está inserido, resultando numa trama única. Apesar de únicos na manifestação de suas dificuldades, crianças e jovens com transtorno específico de aprendizagem compartilham o fardo do mau desempenho na escola e com frequência são rotulados por colegas, pais e professores como preguiçosos, pouco empenhados e incompetentes. Indivíduos com transtorno específico de aprendizagem precisam ser ajudados e, felizmente, existem meios para que isso aconteça. Não há atalhos, o caminho é longo e árduo, mas essas crianças e jovens e suas famílias não precisam empreender a jornada sozinhos. O primeiro passo é identificar as dificuldades e providenciar uma avaliação interdisciplinar da aprendizagem. A partir dos achados da avaliação e do diagnóstico delineia-se um percurso de intervenções e orientações para aquela determinada criança ou jovem.

Algumas características comumente observadas em indivíduos com transtornos específicos de aprendizagem (adaptado de Davis, 2010).

  • É inteligente mas não apresenta bom desempenho acadêmico.
  • Tem dificuldade para manter a atenção, parece sempre desconcentrado, fora do ar.
  • Frequentemente é rotulado de preguiçoso, burro, imaturo ou problemático.
  • Perde-se com frequência e não tem noção da passagem do tempo.
  • Tem melhor desempenho em testes orais do que escritos.
  • Aprende melhor pela experiência prática, pela demonstração, observação e com apoio visual.
  • Pensa mais com imagens e emoções do que com sons e palavras.
  • Sente-se inferiorizado, burro, sem autoestima, tenta esconder suas dificuldades com subterfúgios, frustra-se com facilidade.
  • Confunde letras, palavras, números, sequências e explicações verbais.
  • Frequentemente tem talento para a arte, teatro, música e esporte e é bastante criativo.
  • Pode contar em voz alta, mas tem dificuldade para contar objetos, para estimar medidas, para resolver problemas matemáticos, para lidar com dinheiro e para ver horas no relógio.
  • Tem excelente memória para eventos biográficos de longo prazo, mas memória muito ruim para sequências ou informações que não foram experimentadas.
  • Seus erros e sintomas pioram dramaticamente na presença de confusão no ambiente e se apressado ou submetido a stress emocional.

Dentre os transtornos específicos de aprendizagem, existem alguns mais bem estudados e compreendidos e outros menos. Independentemente do nome e do grau de severidade, todos afetam negativamente a vida dos indivíduos que os possuem. O transtorno específico da habilidade de leitura, também conhecido como dislexia tem sido o mais estudado. Seguido dele, mas bem menos explorado, vem o transtorno específico das habilidades matemáticas, também denominado discalculia.

Quer saber mais sobre o assunto? Continue lendo este post em Transtorno de Aprendizagem – Parte 2.

Artigo produzido pela Profa. Dra. Mônica Andrade Weinstein, diretora técnica da Coruja Educação.

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