O papel da escola frente aos Transtornos de Aprendizagem

Quando houver suspeita de que um aluno possui algum tipo de Transtorno Específico da Aprendizagem, a escola deve providenciar junto às famílias o encaminhamento para um diagnóstico interdisciplinar e incentivar a identificação e o tratamento desse aluno. Deve promover acompanhamento consistente e afirmativo para essas crianças e jovens e incentivar os professores a desenvolver programas que favoreçam a integração social e o uso de estratégias pedagógicas diferenciadas de abordagem para cada caso particular. Um plano individualizado para cada ano letivo deve ser discutido entre direção, coordenação, professores, pais e, se possível, o aluno, para garantir que ele tenha acesso às adaptações logo no início do ano. No ano seguinte, a coordenação e os professores precisam ter acesso ao plano que está sendo seguido e a seus resultados.

Cada caso deve ser analisado em sua individualidade e a abordagem vai variar em função do tipo do transtorno e de sua severidade. A existência de um Transtorno Específico da Aprendizagem, seu tipo e sua severidade precisam ser definidas no relatório da avaliação interdisciplinar da aprendizagem e serão monitorados no acompanhamento interdisciplinar de cada criança. Podemos afirmar, sem exagero, que todos os alunos com dislexia, discalculia e outros transtornos específicos de aprendizagem necessitarão de adaptações pedagógicas e ou curriculares em algum momento de suas vidas acadêmicas. Alguns deles precisarão desse apoio apenas por um período de tempo, outros até a conclusão do ensino médio ou superior e alguns durante toda a sua vida profissional. Lembrem-se de que não podemos penalizar um indivíduo por possuir uma forma de aprender que não corresponde às expectativas da escola e ou da sociedade.

Em geral, a abordagem escolar do Transtorno Específico da Aprendizagem deve ser: preventiva, individualizada, multissensorial e sequencial.

Seguem algumas sugestões:

  • A coordenação deve informar aos professores de todas as disciplinas sobre o fato do Transtorno Específico da Aprendizagem e discutir com cada um deles quais estratégias serão empregadas.
  • Registro da aula (áudio ou vídeo), ou participação de um tutor para ajudar a tomar notas.
  • Tempo extra para completar as tarefas e avaliações. Os Transtornos Específicos da Aprendizagem roubam tempo das pessoas e as acomodações lhes devolvem esse tempo.
  •  Evitar sobrecarga da memória de trabalho, designando tarefas que estejam dentro das habilidades dominadas.
  • Ter um “tutor” ou “tradutor” para acompanhar o aluno individualmente na escola e fora dela.
  • Certificar-se de que o aluno entendeu a matéria ensinada, solicitando-lhe que explique o assunto oralmente para o professor ou tutor, em situação individual.
  • Permitir que o aluno acompanhe seu progresso, que fatos ele domina e quais conteúdos ainda precisam ser aprendidos.
  • Dar tempo extra para o aluno processar a informação.

A família deve ser mantida informada sobre a evolução da criança e sobre as adaptações aplicadas e seus resultados.

Políticas públicas

Embora exista amparo legal constitucional para as necessidades educacionais específicas dos alunos portadores de transtornos de aprendizagem, entre eles a dislexia e a discalculia; na prática, ainda há muitas dúvidas relacionadas a como ajudá-los dentro e fora da escola. O debate envolvendo os indivíduos com Transtorno Específico da Aprendizagem não pode ficar circunscrito à academia, é necessária a participação das famílias, professores e gestores públicos para que se implemente ações que permitam que essas crianças possam ir às escolas para, de fato, aprender.

Artigo produzido pela profa. dra. Mônica Andrade Weinstein, diretora da Coruja Educação

Referências

American Psychiatric Association. Diagnostic and Statistical Manual of MentalDisorders. 4th ed., text revised. Washington DC: American Psychiatric Association, 2000.

Butterworth, B & Yeo, D. (2004). Dyscalculia Guidance. London : Nelson.

Butterworth, B. (2005). The development of arithmetical abilities. Journal of Child Psychology and Psychiatry, 46(1), 3-18.

Chinn, S; Ashcroft, R. – Mathematics for Dyslexics, including Dyscalculia’ (2007) 3rd edition,London,, Wiley. Izard,V. ;

Dehaene-Lambertz, G. and Dehaene,S. (2008) Distinct cerebral pathways for object identity and number in human infants. PLoS Biology, 6(2):e11.

Dehaene, S. (1997) –The number sense: how the mind creates mathematics; London, Oxford university Press.

Dehaene,S; Spelke,E.; Pinel, P; Tsivkin,S ( 1999) – Sources of mathematical thinking: behavioural and brainimaging evidence. Science ;vol. 284. no. 5416, pp. 970- 974.

Dehaene,S.; Molko,N; Cohen,L & Wilson, A.L.. Arithmetic and the brain. Current opinion in neurobiology, 14: 218-224. Department for Education and Skills (2002)

Transforming Youth Work – resourcing excellent youth services, London: Department for Education and Skills/Connexions. Dyscalculia.org math learning disabilty resource at http://www.dyscalculia.org.html

Fletcher,J.M.,Lyons,G.R., Fuchs, L.S., Barnes, M.A.(2009) Transtornos de aprendizagem: da identificação à intervenção, Porto Alegre, Artmed.

Garnett, K., Frank, B., & Fleischner, J.X. (1983). A strategies generalization approach to basic fact learning.. Research Institute for the Study of Learning Disabilities. New York, NY: Teacher’s College, Columbia University.

Geary, D. C. (1993). Mathematical disabilities: Cognitive, neuropsychological, and genetic components. Psychological Bulletin, 114, 345-362.

Geary,D.C. (2004) Mathematics and learning disabilities. Journal of learning disabilities, 37, 4-15.

Geary,D.C. (2005) Role of cognitive theory in the study of learning disability inmathematics. Journal of learning disabilities, 38, 305-307.

Kosc, L. (1974). Developmental dyscalculia. Journal of Learning Disabilities, 7, 164-177.

National Adult Literacy and Learning Disabilities Center (Summer,1995) Adults with Learning Disabilities: Definitions and Issues.

Rourke,B.P. (1993). Arithmetic disabilities specific and otherwise: a neuropsychological perspective. Journal of Learning Disabilities, 26, 214-226.

Shalev, R.S., Auerbach,J., Manor,O.; Gross-Tsuc,V. (2000) Developmental dyscalculia: prevalence and prognosis. European child and adolescent psychiatry, 9,58-64.

Shalev,R. (2004) . Journal of Child Neurology, Vol. 19, No. 10, 765-771.

Weinstein,MCA ; Wajnsztejn, R. ; Brito, I.P. ; Gerbelli, S.M. ; Gabanini, A. (2008).Discalculia: rumo a um protocolo de investigação.In: Anais do 19o. Congresso Brasileiro de Fonoaudiologia, Campos de Jordão.

Wilson, A. J. & Dehaene, S. (2007). Number sense and developmental dyscalculia.

Coch, D., Fischer, K, & Dawson, G. (Eds). Human Behavior and the Developing Brain (2nd Edn)

Blog da Coruja
VOLTAR AO TOPO